Y Corp
A moto do
correio finalmente parou diante da caixa, o coração de Philip acelerou. Em
segundos estava ele do lado de fora, olhando para a correspondência mal viu o
rosto do carteiro, assinou o recebimento e o logo da Y Corp fez seu coração
bater na garganta era a resposta que esperava, seu sonho poderia se tornar
real!
A carta
dizia: “Terminado o processo de recrutamento você foi selecionado para integrar
o quadro de executivos da empresa”.
Abaixo a
localização da sede principal da empresa em uma pequena cidade feita para os
altos funcionários desenvolverem seus trabalhos dentro de totais condições, com
prestadores de serviço sempre prontos e bem treinados a servir, assim como
estava na chamada do recrutamento “Seja Um de Nós”, viver em uma ilha de
segurança e prosperidade. Junto da carta um cartão de acesso eletrônico para
abrir o portão.
Ele havia
acreditado e conseguido, como valeram os caríssimos cursos e palestras para
executivos! De qualquer forma sentia que esse era seu meio, não se conformava
com o comodismo das pessoas com quem sempre convivera, o dia após dia de sua
mãe brilhando a casa para receber as vizinhas e conversar sobre novelas, as
pescarias do seu pai saindo na velha bicicleta.
Antes de ir
ainda faltava uma coisa, passou na concessionária e trocou seu carro por um
modelo à altura da sua nova posição e pegou a estrada. O lugar não era tão
longe, antes do pôr do sol conheceria sua nova casa já mobiliada, naquela
cidadezinha acolhedora.
A placa na
rodovia indicava a estrada secundária que levava ao seu destino, tudo
transcorria perfeitamente em um lindo dia de céu azul. O envelope da empresa
com seu diploma de vencedor ia como seu passageiro no banco ao lado, de tempos
em tempos ele o olhava para garantir que ainda estava ali. O logo da companhia
o fazia refletir sobre o “Y” que lhe dava nome. Os braços erguidos dos
vitoriosos, também o cromossomo masculino da virilidade, da conquista, da
decisão, daqueles que impõe ao mundo suas regras.
O GPS no carro
indicava que estava chegando. Sim, o portão da cidade protegida por uma cerca
elétrica erguia-se imponente, era hora de usar o cartão enviado junto com a
carta. O portão abriu e uma voz feminina deu boas-vindas falando seu nome.
A estrada
até a cidade era curiosamente longa com imensas árvores sombreando a área, por
vez ou outra um brilhozinho de sol conseguia passar pela folhagem, galhos e
troncos que se interpunham.
Com a tarde
já no fim abriu-se uma clareira do lado direito, na última contraluz do poente
se delineava as cruzes de um cemitério, o reflexo no mármore revelava estátuas
de anjos tristes olhando para baixo.
Phillip
acelerou o carro para tentar chegar mais rápido possível, não queria se perder
à noite. O cemitério ficara para trás e o começo da noite acabou por diminuir
sua ansiedade, já podia ver a luz da pequena cidade refletindo na névoa cercada
entre as colinas.
Depois de
infindáveis curvas apontou numa reta e a cidade finalmente apareceu a sua
frente. Era mais graciosa do que poderia imaginar, uma praça com uma igreja
gótica, nas ruas subindo pelas colinas, em luz neon lia-se arcade e boliche,
pub, pizzaria, grill, Night Club. Ficou animado de se divertir e comer,
aproveitar a noite agradável depois de um banho para tirar o cansaço da viagem.
Seguindo as
instruções da voz no aplicativo de localização em pouco mais de cinco minutos
chegou ao endereço programado onde indicava a carta, seria essa a sua casa
enquanto quisesse permanecer nela. Um sobradinho simpático com jardim de rosas
e ciprestes italianos emoldurando a fachada.
O cartão
abriu a porta e ao acender a luz viu o lugar limpo com uma bela mobília bem
lustrada, depois de um copo d’agua e uma rápida aliviada na bexiga subiu as
escadas e deparou-se com uma cama arrumada onde esticou o corpo cansado. Estava
sentindo-se tão orgulhoso de si mesmo, de sua conquista, em sua mente procurou
rever os meses de treinamento no tempo de experiência e como havia feito para
ser bem sucedido, encontrar o investimento certo, farejar o lucro, surpreender
os chefes. Mas não podia se dar por satisfeito, agora deveria ser mais
incisivo, oferecer dedicação irrestrita, sabia podia alcançar muito mais!
Tomou um
banho e foi conhecer a cidade a pé, caminhar por aquele sonho, desfrutar da
tranquilidade e da beleza inexistente nas cidades ordinárias, onde esperava não
precisar viver mais.
As ruas
vazias denotavam que todos deveriam já estar nos estabelecimentos de diversão e
gastronomia, então era para eles que deveria ir.
Ao chegar à
rua da praça da igreja admirou-se ainda mais com a requintada arquitetura da
igreja vista à distância toda iluminada.
Súbito um blackout mergulhou toda cidade na
escuridão.
Por não
conhecer ainda o lugar ficou parado esperando que a luz voltasse. Passado um
tempo ficou cansado e caminhando bem lentamente atravessou a rua, usando a luz
do celular, para alcançar algum banco na praça onde pudesse se sentar até a luz
voltar. Em frente à igreja um pequeno poste de luz a óleo foi a aceso, a baixa
claridade lhe chamou a atenção e pode ver a silhueta de um homem com
vestimentas de sacerdote voltando para dentro da igreja. Olhando em volta
percebeu que nas casas também surgia a luzinha amarelada de velas sendo acesas.
Depois de um
tempo de acomodado ao banco um som parecido com um choro de bebê quebrou o
silêncio em que a pequena cidade havia mergulhado junto com a escuridão. O
choro do bebê ficou mais forte e guiou seu olhar de volta para o lado da
igreja, sob a luz a óleo viu que havia um cesto de onde parecia vir o choro.
Deteve-se um tempo e como o choro só aumentava foi até lá ver o que se passava,
se havia alguém por ali, talvez alguém abandonara aos cuidados da caridade
religiosa, mas em uma cidade que é um refúgio da prosperidade era estranho...
Chegando ao
cesto, uma manta contornava o corpinho do bebê e um capuz desproporcional
cobria sua cabeça caindo sobre seu rosto, parecendo dificultar sua respiração. Antes
de chamar o sacerdote para tomar ciência da situação resolveu descobrir o
rostinho do pequenino para evitar que se sentisse sufocado. Nesse momento
agachado junto ao cesto levou um susto que o fez perder o equilíbrio e cair sentado
no piso de pedra da praça.
Chocado
voltou para olhar o rosto desfigurado do bebê. Algo totalmente anormal, a volta
de seus olhos era preta a primeira olhada até pareceriam buracos, seu nariz
também era deformado com as narinas voltadas para cima como as de um porco, e
na sua boca via-se dentinhos desordenados e pontiagudos. O bebê exalava um
forte odor de podridão que o fez vomitar.
Correu até a
igreja, bateu na porta e tentou a maçaneta, não estava trancada e se abriu, de
frente para o altar o sacerdote orava ajoelhado sob castiçais com velas acesas,
com a cabeça baixa e as mãos unidas diante do rosto.
Com a voz
trêmula chamou:
_Padre!
Mas o
sacerdote não interrompeu a oração. Chamou e novo tentando balbuciar seu
horror.
_Padre, tem
uma criança abandonada lá fora... Toda deformada!
Mas o
religioso ainda estava no seu transe profundo de oração. Tentou mais uma vez
gaguejando.
_Padre, você
tem que ir ver a criança! A volta dos seus olhos é muito escura! O nariz são
dois buracos enormes! E a boca...
Não
conseguiu descrever e continuou.
_Padre o
rosto da criança é...
O padre
finalmente terminou a oração com o sinal de cruz e virou-se respondendo:
_Assim?
A visão do
rosto do padre fez o sangue do pobre homem congelar nas veias, ele tinha as
mesmas deformidades! Sem entender o que estava acontecendo foi recuando para a
saída da igreja, o padre vinha em sua direção. Apressou o passo e saindo da
igreja avistou uma multidão com velas acesas em torno de onde estava a criança.
As velas
seguradas na altura do rosto revelavam as horríveis deformidades daquela
bizarra população. Teve o ímpeto de fugir do meio de toda aquela insanidade, mas
foi cercado. Tomado pelo pânico ficou paralisado, a multidão monstruosa se
fechava em torno dele e começava a agarrá-lo, sem poder reagir acabou
desmaiando.
Acordou com
o som da campainha, estava na cama de sua casa, tinha acordado de um pesadelo
sufocante.
Olhou o
relógio, precisava se arrumar e ir para empresa, foi ver quem estava à porta.
Uma jovem mulher elegantemente vestida em seu tailleur adiantou-se:
_Bom dia
Phillip meu nome é Linda (e ela era mesmo!) sou sua secretária, vim hoje para
guiá-lo pelo complexo da empresa até sua sala e depois até a sala de reuniões.
A visão
daquele rosto o deixou um tempo mudo de surpresa e ela mudou o olhar e sorriu
como quem pede uma resposta. O rapaz percebeu e respondeu.
_Entre,
estarei pronto em um minuto, cheguei cansado ontem e acabei apagando na cama.
A secretária
olhou em direção a cozinha e disse.
_Temos uma
hora ainda, enquanto você se arruma eu faço um café.
No banho
Phillip estava sorrindo, tinha uma secretária linda na sua cozinha lhe
preparando um café! Depois do pesadelo da noite despertara para a realidade da
vida dos seus melhores sonhos.
Tomaram café
e ela antes de levá-lo em seu carro para o primeiro dia de trabalho ajeitou sua
gravata e arrumou o caimento do paletó nos ombros. Mais próximo da empresa as
mansões dos executivos mais importantes aumentaram seu desejo de rapidamente
“chegar lá”, ele tinha tudo para conseguir.
Chegando na
empresa ela o deixou na sua sala e disse:
_Daqui a
trinta minutos venho buscá-lo para sua primeira reunião (apontou o botão no
telefone) nesse ramal você me chama a qualquer hora.
Mais uma vez
ela sorriu e deixou a sala. O notebook sobre a mesa estava ligado, ele já podia
visualizar as informações das tarefas que esperava pela frente.
De repente
começou a perceber um cheiro ruim, olhou debaixo dos sapatos e não havia pisado
em nada... O cheiro parecia vir dele mesmo, mas seu terno acabara de ser
lavado, ele foi ao banheiro lavar as mãos e olhar a parte de trás do terno no
espelho, não havia nada.
Foi até a
janela da sala para pegar um ar fresco, sua secretária voltou com o cesto de
presentes de boas-vindas do qual ele já havia ouvido falar, um relógio Rolex, uma
garrafa de whisky, vinhos e dispositivos eletrônicos de última geração,
celular, notebook etc. Pensou, “essa empresa sabe mesmo animar seus
executivos”.
Ao retirar o
Rolex para colocar no punho, percebeu que o cesto não era estranho...
Lembrou-se do sonho, tirou as mãos de cima das coisas, ficou intrigado. Depois
pensou que na verdade todos os cestos são iguais. O cheiro voltou a lhe
incomodar e sua secretária veio lhe chamar para a reunião mais importante da
sua vida até ali.
Andaram
pelos corredores e chegaram a uma sala enorme. Uma cortina cobria o que deveria
ser uma tela de projeções, a frente um púlpito onde um dia daria as diretrizes
da condução de um grande negócio, a apresentação de um novo produto, algo
realmente importante.
O presidente
e o vice da companhia entraram juntos com os executivos que vinham chegando,
todos riam animadamente e o presidente disse:
_Tomem seus
lugares à mesa senhores, vamos dar as boas-vindas ao nosso novo membro, ele
concluiu seu treinamento de forma brilhante e certamente ajudará a todos nós a
ficarmos mais ricos.
Todos riram
como era esperado e cumprimentaram o novato. Ele correspondeu em meio ao seu
desconforto pelo fedor, que só aumentava e começava a fazê-lo suar.
O presidente
tomou seu lugar no púlpito, a cortina da tela de projeções se abriu e ele
discorreu sobre os planos de negócios e as metas enquanto na tela apareciam os
gráficos, as áreas onde dominariam o mercado, os custos, os lucros esperados.
Ele dizia:
_Senhores,
não temos espaço para hesitações ou falhas, precisamos agir todos com um único
propósito, nos dedicar mais do que cem por cento. O que nos distingue? Que nos
possibilita ter nossa própria cidade, uma ilha de paz e prosperidade? É que
somos a Y Corp!
Enquanto
falava o presidente, na mesa foram sendo colocadas para cada membro executivo bacias
e taças de prata. Phillip ficou intrigado, qual será o produto a ser exibido? O
discurso prosseguia.
_Seja qual
for o objetivo designado, nós cumprimos, executamos!
O novo
membro seguia o discurso, já estava nauseado e tonto pelo forte odor que
sentia. Buscou uma jarra de água à sua frente, mas quando verteu sobre a taça
viu um líquido escuro escorrer, no reflexo da prata sua figura distorcida na
curvatura lembrava as criaturas do seu terrível pesadelo. Nas bandejas
dispostas à mesa via como num espelho cada membro como uma daquelas criaturas
bizarras que o cercaram e o sufocaram.
_Vamos agora
ao trabalho, disse o presidente com um aceno para que trouxessem o material a
ser distribuído para cada um.
Quatro
homens vestidos de mordomos vieram trazendo jarros enormes e derramaram nas
bacias uma mistura macabra de sangue com cortes de partes humanas, na qual ele
via, um nariz, olhos, couro cabeludo com cabelos flutuando na sopa de sangue,
além do que pareciam ser pedaços de intestino recheados com fezes e uma orelha
que emergiu em meio aquilo tudo.
Seria aquilo
um trote? Um teste? Uma piada doentia?
Seus colegas
em volta pegaram suas colheres e começaram a comer a iguaria exalando a podridão,
onde se movimentavam o que só poderiam ser vermes.
Aquilo era
impossível! O que significava tudo aquilo?
Alguns de
seus colegas acenando com olhares o aconselhavam a começar a comer. Foi quando
ele notou que os mordomos se aproximavam segurando porretes de madeira. Quanto
mais próximo os mordomos chegavam mais rápidos os executivos devoravam o
conteúdo das bacias. Até que um deles não aguentou a engolir mais e começou a
vomitar, seus colegas ao verem, viraram os rostos. Os mordomos se acercaram dele
e agarraram seus braços o arrancando da mesa. O homem arrastado gritava, “eu
vou comer, eu vou comer tudo, me deixem comer por favor!”. Com uma pancada na
cabeça o derrubaram no chão e começaram a arrancar suas roupas. Puxado pelos
pés, foi levado até próximo ao púlpito sob o olhar de reprovação do presidente
da empresa. Duas cordas desceram do teto e seus pés foram amarrados, sendo ele
içado de cabeça pra baixo, nu.
Phillip
estava petrificado na sua cadeira, não sabia o que estava acontecendo naquele
lugar.
A sala de
reuniões escurece e na tela é projetada a imagem da criatura de olhos vazios e
formas distorcidas. O presidente e os diretores vestem casacas cerimoniais, o
presidente com a casaca dourada recebe de um dos mordomos uma faca do tipo de
açougueiro. As cordas são puxadas mais para o alto e as pernas do homem se
abrem, deixando a toda a base dos genitais exposta. Usando uma pequena escada o
presidente sumo-sacerdote sobre até a altura necessária para ter acesso e
mutilar o saco escrotal e o pênis juntos.
Os diretores
com suas casacas verdes em volta se ajoelham e gritam “aleluia”! Os órgãos
genitais são mostrados no alto para todos verem e uma nova arremessa de restos
humanos começa a ser despejada nas bacias.
O mordomo vê
a bandeja do jovem executivo ainda cheia e o manda comer, os outros mordomos
começam a se aproximar e o rapaz fecha os olhos e começa a pegar pedaços da sua
bacia e a colocar na boca. Os mordomos vão chegando às suas costas e ele começa
a comer mais rápido.
Os diretores
erguem os braços em adoração a criatura projetada na tela e o corpo com o
braços esticados de cabeça pra baixo e as pernas para cima afastadas formando
um Y se mistura ao logo da Y Corp, com um Y escorrendo sangue.
Quando os
mordomos finalmente olham para a sua vasilha, esta já está vazia.
